domingo, 26 de outubro de 2014
Garota Exemplar (2014)
Na superfície, "Garota Exemplar", novo filme de David Fincher, baseado no romance homônimo, é sobre as dificuldades da vida a dois, sobre as concessões e sacrifícios necessários para manter um casamento. A mulher de Nick Dunne (Ben Affleck), Amy (Rosamund Pike), desaparece exatamente no dia em que completam cinco anos de casamento – “bodas de madeira”, explica ele, que em todos os anos foi capaz de dar um presente relacionado à simbologia da data. Nesse ano, no entanto, não conseguiu pensar em nada. Sua mulher, ao contrário, parece ter armado toda a comemoração – eles faziam uma caça ao tesouro – antes de sumir.
O romance escrito por Gillian Flynn, também autora do roteiro, combina uma narrativa intercalada com os pontos de vista do marido e da mulher, que, mais tarde, convergem numa das várias reviravoltas do romance. No filme, as idas e vindas não são tão bem resolvidas, mas Fincher é um diretor técnico o suficiente para criar a tensão na construção das cenas e personagens. Eles vivem numa pequena cidade do Missouri, onde Nick é sócio da irmã gêmea, Margo (Carrie Coon), num bar, depois de perder o emprego numa revista em Nova York. São tempos de crise financeira, shoppings fechados que se tornaram abrigos para viciados e mendigos, lojas e casas abandonadas. A crise financeira também atingiu os Dunne, cujas brigas já eram constantes – e não só por conta da falta de dinheiro.
Quando a investigação começa, não demora muito para a responsável, detetive Rhonda (Kim Dickens), começar a desconfiar da participação de Nick no desparecimento da mulher. Aqui, “Garota Exemplar” começa mostrar, então, qual é o seu tema: a boa e velha sociedade do espetáculo. Logo uma horda de jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos estão dando plantão em todos os lugares por onde Nick passa.
A narrativa de Amy parte direto de seus diários. Por meio de flashbacks, descobre-se que ela é a inspiração para uma famosa série de livros infantis escritos por seus pais e protagonizados pela Amy Exemplar, calcada nela mesma – o que leva o marido Nick a dizer: “Eles roubaram sua infância”. Também dos diários, surge uma versão do desenrolar da história de amor do casal. Mas, a toda hora nos lembra Fincher, essa é uma sociedade da aparência, e a verdadeira Amy é uma tremenda de uma atriz – ela sabe o mundo em que vive (atua?) e dá exatamente aquilo que o seu público quer. Se eles querem sangue, é sangue que eles vão ter.
Fincher também sabe proporcionar exatamente aquilo que seu público quer. Se em Seven, ele entregou a cabeça da mocinha dentro de uma caixa de papelão, aqui a mocinha não é mais a ingênua – nem o mocinho tão heroico. Ainda assim, "Garota Exemplar" parece tomar mais partido de Nick do que de Amy. Vê-se boa parte da história pelo seu ponto de vista – mas ele também, com ajuda de um advogado (um surpreendente Tyler Perry), sabe fazer o jogo dos abutres da mídia sedentos por sangue. O casamento, a relação humana, são apenas a ponta do iceberg nesse filme, em que Fincher faz um retrato cândido de nossa sociedade governada pelas imagens – aquela que criamos para nós, aquela que criam de nós – e pelos jogos de poder – do qual sempre sai vitorioso quem tem mais dinheiro. Aqui não é diferente.
Nomeado ao Oscar de Melhor Atriz (Rosamund Pike).
(Gone Girl - 2014)
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À Procura do Amor (2013)
Na comédia romântica "À Procura do Amor", um dos últimos filmes de James Gandolfini, uma novidade está mesmo na presença do ator, que morreu em junho passado, aos 51 anos, num papel muito diferente dos durões que encarnou no cinema e na TV.
Distanciando-se especialmente do celebrado Tony Soprano, da série "Família Soprano", ele revela talento e sensibilidade para interpretar Albert, um arquivista de uma biblioteca audiovisual de televisão, divorciado e solitário. Numa festa, ele encontra Eva (Julia-Louis Dreyfuss), massagista, também divorciada, como ele, mãe de uma filha que está saindo de casa para cursar a universidade.
Algumas diferenças deste filme, escrito e dirigido por Nicole Holofcener ("Sentimento de Culpa"), em relação à média das produções do gênero, é apostar em protagonistas mais maduros e não criar um caminho previsível nem adocicado demais na aproximação romântica dos protagonistas. Ambos trazem na bagagem compreensíveis traumas do casamento anterior e demonstram suas hesitações nos estágios iniciais do romance, que contribuem para criar simpatia para os dois.
A encrenca está em que, na mesma festa, Eva conheceu uma futura nova cliente, Marianne (Catherine Keener). Poeta, sofisticada, ela encanta Eva por ser uma espécie de mulher que ela, mais simples e relaxada por natureza, nunca foi. Tornam-se amigas e confidentes antes que Eva perceba que ela é a ex-mulher de Albert. E que fala horrores dele.
Lembrando muito sua inesquecível Elaine Benes, a personagem do seriado "Seinfeld", Eva sente-se numa armadilha: conta a Marianne que está namorando seu ex e perde a cliente e amiga? Revela a Albert a situação? Ela não consegue fazer nenhum dos dois. Insegura, leva a sério demais os comentários ácidos de outra amiga, Sarah (Toni Collette), uma terapeuta que vive um casamento acomodado com Will (Ben Falcone).
Engasgando nesse dilema mais do que devia, "À Procura do Amor" perde um pouco de fôlego. Nada que transforme o filme num desastre, bem ao contrário. Trata-se de uma comédia com adultos, para adultos, que não dispensa a interferência de algumas simpáticas personagens jovens – caso da filha de Eva, Ellen (Tracey Fairaway), e sua amiga carente, Chloe (Tavi Gevinson). A relatividade das visões de mundo das duas fases da vida entra em foco, a favor de um maior equilíbrio e ternura.
(Enough Said - 2013)
Eating Out: The Open Weekend (2011)
Durante o acampamento de atores, Zack acabou largando Casey e ficando com Benji. Como prêmio do acampamento, os meninos e suas melhores amigas, Lily e Penny, ganharam uma viagem para um final de semana em um resort gay em Palm Spring.
Uma verdadeira miscelânea de homens bonitos acaba balançando o relacionamento de Benji e Zack que acabam resolvendo passar esse final de semana livres para que pudessem aproveitar. Zack não parece estar tão empolgado com a ideia, mas resolve seguir com o plano para manter Benji feliz, até porque ele também adora uma azaração.
Ao mesmo tempo Casey sabendo que Zack estará com seu novo namorado, recruta Peter, seu novo amigo e pede que ele finja ser seu novo namorado durante esse final de semana para provar a Zack que superou a perda.
(Eating Out: The Open Weekend - 2011)
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Eating Out: Drama Camp (2011)
A relação de Zack e Casey está em queda, mas as coisas estão prestes a mudar em Dick Dickey´s Drama Camp. Zack encontra Benji, e se tornam amantes em uma versão muito sexual de The Taming of the Shrew e sua felicidade é colocado à prova.
(Eating Out: Drama Camp - 2011)
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sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Ninfomaníaca: Volume 1 (2013)
A primeira polêmica envolvendo "Ninfomaníaca: Volume 1", antes mesmo que o filme seja exibido, envolve a notícia, divulgada pelos distribuidores brasileiros, de que a versão que está sendo lançada aqui é a que foi cortada pelos produtores, com autorização de Lars Von Trier, mas sem sua participação. A versão sem cortes vai ser divulgada em primeira mão pelo Festival de Berlim, em fevereiro. Como de costume, o marketing precede a obra, no mais puro estilo do premiado diretor dinamarquês.
Então, do que Von Trier quer falar aqui? De erotismo, sexualidade extrema e culpada, em primeiro lugar. Porque Joe (Charlotte Gainsbourg), a protagonista, socorrida por um homem que a encontrou ferida na rua, Seligman (Stellan Skarsgaard), conta-lhe exaustivamente suas aventuras sexuais, sob o peso de uma grande culpa. É o olhar de uma mulher entrando na maturidade, de uma masoquista ou de uma depressiva egocêntrica?
A sexualidade em "Ninfomaníaca: Volume 1" raramente parece realmente livre, exuberante. É geralmente marcada por um traço sórdido – como a sequência em que a jovem Joe (Stacy Martin) procura perder a virgindade com um rapaz que tem uma moto, Jerôme (Shia La Beouf), numa oficina suja, numa situação em que ela parece ter procurado ser objeto e vítima, não uma curiosa parceira de prazer. Aliás, por mais que procure o sexo, Joe parece fazê-lo mecanicamente, não demonstrando qualquer euforia. Mais do que tudo, essa atitude é que dá a pista de sua compulsão.
Não é a primeira vez que Von Trier coloca suas personagens femininas em situações degradantes, sexuais ou não, como aconteceu por exemplo, em "Ondas do Destino", "Dogville" (2003) e "Anticristo" (2009). Naqueles filmes, como em Ninfomaníaca, explode também o lado perverso e provocador do diretor, além de um senso de humor cada vez mais feroz – e que se manifesta com todo seu brilho e causticidade numa sequência que envolve a sra H (Uma Thurman), seus filhos pequenos, seu marido que fugiu para viver com a jovem Joe e um jovem amante desta que chegou no meio do imbróglio.
Ao recontar as aventuras de Joe adolescente e a amiga B (Sophie Kennedy Clark), numa louca competição entre as duas para saber qual delas transaria mais homens em banheiros de um trem - em troca da prosaica recompensa de um saco de bombons - ,Trier mostra, novamente, seu cinismo – que, por excessivo, retira um pouco da humanidade de suas personagens. O que não acontecia em "Ondas do Destino" e "Dogville", filmes de escrita mais elaborada.
Alguns dos raros momentos em que Joe mostra sentimentos é ao lado do pai (Christian Slater). Ela deixa clara uma relação tóxica com a mãe (Connie Nielsen), um indício de um psicologismo um tanto óbvio na composição da personalidade da protagonista.
Por outro lado, Seligman oferece um contraponto, como um intelectual solitário, vivendo num apartamento despojado, de aparência monástica, fazendo referências a Edgar Alan Poe, Thomas Mann, à bíblia, à matemática, à música clássica, diante do relato picante e melancólico de Joe. Esta primeira parte de Ninfomaníaca é bem mais falada do que se poderia imaginar. É pela palavra que Joe reconstitui a própria vida, procurando castigo ou absolvição. Ou talvez, compreensão.
(Nymphomaniac: Vol. I - 2013)
domingo, 12 de outubro de 2014
Annabelle (2014)
Não nego que "Invocação do Mal" tenha me surpreendido, foi um filme de terror que me fascinou e amedrontou, o que me levou a assistir "Annabelle". Infelizmente o resultado não foi o esperado.
Este seria o 'prequel' de "Invocação do Mal", afinal a boneca Annabelle é mostrada no início do filme, mas não é bem assim.
Os distúrbios começam com o casal Mia (Annabelle Wallis) e John (Ward Horton). Prestes a terem um filho, os recém-casados têm sua casa invadida por uma dupla de adoradores do demônio, entre eles Annabelle Higgins que pouco antes havia assassinado os próprios pais. Entre a luta e a chegada da polícia, a criminosa tem tempo de preparar um ritual macabro antes de cometer suicídio no quarto do bebê. Ao lado do corpo, vê-se a boneca ensanguentada.
Nos dias após os acontecimentos traumáticos, Mia e John passam a ser vítimas de fenômenos assustadores inexplicáveis. Mesmo depois de uma providencial mudança de endereço, o casal continua refém de ataques paranormais. Não demorará muito para Mia ter de enfrentar um demônio por trás da boneca e sua sede por almas.
O filme se arrasta, o enredo é fraco e a história não se sustenta.
(Annabelle - 2014)
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Tatuagem (2013)
"Tatuagem" não é um filme brasileiro, é sim um filme pernambucano! Um filme com a alma de Pernambuco, com a sonoridade e o sotaque da região. Dá até para ouvir o filme ao invés de assisti-lo. É um filme mágico.
Conhecemos aqui o "Chão de Estrelas", um teatro mambembe dirigido por Clécio (Irandhir Santos) e protagonizado por Paulete (Rodrigo García). Ambos homossexuais vivendo um amor livre em plena ditadura militar.
A historia se desenrola com a chegada de Fininho (Jesuíta Barbosa), jovem soldado do exército que não se encanta apenas com o "Chão de Estrelas", como também por seu diretor Clécio, o que os leva a viver um romance proibido.
(Tatuagem - 2013)
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sábado, 4 de outubro de 2014
Burning Blue (2013)
Um agente do governo americano é encarregado de descobrir a causa de dois acidentes fatais envolvendo a aeronáutica nacional. Enquanto investiga os problemas técnicos e de gestão, ele descobre que um dos militares foi visto em um bar gay. Começa uma perseguição e investigação sobre a sexualidade deste e de outros homens que servem ao país.
(Burning Blue - 2013)
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quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Dentro da Casa (2012)
Não é mera coincidência que o lugar onde se passa boa parte da ação do drama "Dentro de Casa", do francês François Ozon, seja uma escola chamada Gustave Flaubert. Uma das personagens centrais, Esther (Emmanuelle Seigner), é uma espécie de Madame Bovary contemporânea, burguesa e entediada em sua casa e que acaba despertando a paixão de um adolescente, Claude (Ernst Umhauer), amigo de seu filho. Uma situação, no entanto, que resulta em consequências bastante diferentes daquelas do romance clássico, publicado em 1857.
Sem saber, Esther é o objeto do desejo e protagonista de uma narrativa criada por Claude, na qual realidade e imaginação se misturam. Tudo começa com uma redação para a aula de francês, quando o professor Germain (Fabrice Luchini) nota que Claude tem um talento acima da média.
Na redação, o garoto descreve uma ida à cada do amigo Rapha (Bastien Ughetto), onde conhece o pai (Denis Ménochet) e a mãe, Esther. É um ambiente pequeno-burguês bastante diferente daquele no qual o garoto vive com o pai, preso a uma cadeira de rodas e abandonado pela mãe. O que seduz Claude não é apenas a atmosfera de uma vida financeiramente melhor do que a sua, mas a também ideia da família perfeita.
Aos poucos, cria-se uma estranha relação de interdependência entre o garoto e professor, que toda semana espera uma nova redação, uma nova aventura de Claude na casa dos Raphas, como ele os chama. Claude, por sua vez, aproxima-se cada vez mais de Esther, como se estivesse projetando um complexo de Édipo mal resolvido na mãe do amigo.
O professor também é um personagem interessante. Homem de meia-idade, é casado com Jeanne (Kristin Scott Thomas), gerente de uma galeria de arte à beira da falência, que expõe arte contemporânea. Entre as bizarras obras, estão bonecas eróticas infláveis com a imagem dos rostos de ditadores – como Hitler e Stalin - sobre suas faces.
Ao contrapor a narrativa romanceada das aventuras do garoto na casa do amigo e as estranhas obras da galeria, Ozon, que assina o roteiro, baseado numa peça do espanhol Juan Mayorga, parece questionar os diversos níveis da representação. As histórias do garoto, com o passar do tempo, viram um jogo de espelhos, refletindo também os anseios do professor de manipular as ações do garoto.
Em seu último ato, "Dentro de Casa" perde um pouco de fôlego para o reencontrar apenas na reta final. O que funciona muito bem é o trabalho dos atores – especialmente do novato Ernst Umhauer, cujo risinho cínico no canto da boca tem um quê de Terence Stamp em "Teorema", de Pier Paolo Pasolini, um filme que, não por acaso, estabelece um diálogo com este.
(Dans la Maison - 2012)
sábado, 27 de setembro de 2014
Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual (2011)
Indrodução de "Medianeras - Buenos Aires na era do Amor Virtual".
Buenos Aires cresce descontrolada e imperfeita. É uma cidade superpovoada num país deserto. Uma cidade onde se erguem milhares e milhares de prédios sem nenhum critério. Ao lado de um muito alto, tem um muito baixo. Ao lado de um racionalista, tem um irracional. Ao lado de um em estilo francês, tem um sem estilo.
Provavelmente essas irregularidades nos refletem perfeitamente. Irregularidades estéticas e éticas. Esses prédios, que se sucedem sem lógica, demonstram total falta de planejamento. Exatamente assim é a nossa vida, que construímos sem saber como queremos que fique.
Vivemos como quem está de passagem por Buenos Aires. Somos criadores da cultura do inquilino. Prédios menores para dar lugar a outros prédios, ainda menores. Os apartamentos se medem por cômodos. Vão daqueles excepcionais, com sacada sala de recreação, quarto de empregada e depósito. Até a quitinete, ou "caixa de sapato".
Os prédios, como muita coisa pensada pelos homens, servem para diferenciar uns dos outros. Existe a frente e existe o fundo. Andares altos e baixos. Os privilegiados são identificados pela letra A, às vezes B. Vista e claridade são promessas que poucas vezes se concretizam.
O que esperar de uma cidade que dá as costas ao seu rio?
É certeza que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a apatia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, a tensão muscular, a insegurança, a hipocondria, o estresse e o sedentarismo, são culpa dos arquitetos e incorporadores.
Desses males, exceto o suicídio, todos me acometem.
Preciso dizer mais ou já te convenci a assistir essa preciosidade?!
(Medianeras - 2011)
domingo, 14 de setembro de 2014
Praia do Futuro (2014)
“A Praia do Futuro é perigosa”, diz uma personagem em "Praia do Futuro", de Karim Aïnouz. Aqui, o lugar não é apenas um ponto turístico de Fortaleza: é um estado de alma, aquele da transição, do não-pertencimento, da busca incessante. Ao centro do filme estão três personagens tentando encontrar seu lugar no mundo. Donato (Wagner Moura) é um salva-vidas que não consegue resgatar o amigo do alemão Konrad (Clemens Schick). Isso, no entanto, é apenas o ponto de partida da história de amor entre esses dois homens.
Escrito por Aïnouz e Felipe Bragança, "Praia do Futuro" é um filme construído com lacunas. Há calculadas omissões na narrativa, e chamá-las de buracos seria pejorativo, como se tivesse sido um erro da dupla, quando, na verdade, essas ‘crateras’ escondem a verdade desses personagens. Suas principais decisões não são vistas, pois o diretor está mais interessado nos desdobramentos. A primeira delas acontece logo depois que Donato conta a Konrad que não conseguiu salvar o outro homem. O salva-vidas oferece carona e, na cena seguinte, os dois estão se atracando no carro e, pouco depois, num quarto de hotel.
Como chegaram até ali? Qual a dinâmica que desenharam para chegar àquele momento? Nada disso está presente no filme e, no fundo, não faz a menor falta, pois em seus filmes (especialmente nos dois primeiros, "Madame Satã" e "O Céu de Suely"), Aïnouz filma corpos em movimento. A textura da pele, os fios de cabelo, o suor que escorre, tudo contribuiu, nem que seja de forma sutil, para a construção das narrativas e das personagens.
Se a primeira parte de "Praia do Futuro" é ensolarada em Fortaleza, o que segue depois é numa Alemanha gélida, onde Donato é o estrangeiro (em vários sentidos). Não é uma adaptação fácil – não é apenas por causa do clima, mas também a língua e os costumes. Anos depois, quando finalmente parece estar encontrando o seu lugar, surge um fantasma do passado: o irmão caçula, Ayrton, vivido por Jesuíta Barbosa, que desde que apareceu na tela do cinema no ano passado com "Tatuagem" mostrou que é uma força da natureza – aqui, mais do que nunca.
Konrad é o complemento de Donato. Ayrton, seu antagonista. Das pequenas disputas com o alemão, o ex-salva-vidas sai quase intacto, mas do embate com o irmão é que emergem suas maiores dores. Não sabemos direito quais são, apenas deduzimos, e aí surge com mais forma, escondida na composição do filme, a simbologia das crateras da narrativa. Aquilo que não sabemos da trama é o mesmo não-dito dos personagens. As coisas não precisam ficar explicitadas para que eles se entendam – nem para que nós entendamos o filme.
"Praia do Futuro" é o filme mais maduro do diretor – parece o mais apurado e mais técnico. Aqui não há aquele desespero dos personagens, das imagens, dos diálogos de
"O Céu de Suely" – o que existe é um minimalismo que dá conta de tudo aquilo. Não chamemos de excesso – porque Aïnouz nunca foi diretor de excessos –, mas aqueles momentos menos calculados, por assim dizer, fazem um pouco de falta aqui.
O diretor amadureceu e com ele seu cinema – sem nunca deixar para trás aquilo que seus filmes sempre tiveram de inquietante. Há um quê proposital do cinema de Rainer Werner Fassbinder nesse novo trabalho do brasileiro que, em seus momentos mais viscerais, está na mesma medida do cineasta alemão. A Praia do Futuro é um lugar perigoso, mas vale ser enfrentado, pois é sempre bom lembrar: o medo devora a alma.
(Praia do Futuro - 2014)
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Os Homens São de Marte... E é pra Lá que Eu Vou! (2014)
Baseado numa peça que ficou quase uma década em cartaz no país, e fez um público de dois milhões de ingressos, o longa "Os homens são de Marte ... E é para lá que eu vou!" traz sua criadora, Mônica Martelli, novamente como protagonista. Ela é Fernanda, mulher bem-sucedida profissionalmente que busca um homem para chamar de seu e se envolve em mil confusões enquanto tenta achar o príncipe encantado.
A trama, os personagens e a situações são tão clichês quanto as duas frases anteriores que descrevem o filme. O que há nessa mulher contemporânea que assusta aos homens? Seria o seu desespero para se casar ou sua independência financeira? Fernanda, que é sócia numa empresa que organiza festas de casamento, se envolve com um político (Eduardo Moscovis), um milionário (Humberto Martins), um alemão meio hippie no nordeste (Peter Ketnath) e um arquiteto (Marcos Palmeira).
Com todos ela “acredita que será feliz para sempre – e com quase todos se frustra. É apenas com um deles que ela encontra o puro amor conjugal: com aquele com quem não vai para a cama no primeiro encontro. "O Homens são de Marte... E é pra lá que eu vou!" parece estar repetindo um velho bordão moralista, da suposta diferença entre as que são para casar e as outras.
Mônica é boa de comédia e domina a personagem, tem timing para humor e sem dúvida é o que há de melhor no filme. Mas as situações e a obstinação de Fernanda quase desumanizam a protagonista que, em certos momentos, parece um robô programado apenas para esperar uma aliança na mão esquerda.
Os coadjuvantes – Daniele Valente e Paulo Gustavo – são apenas desculpas para Fernanda conhecer novos homens, novos pretendentes em potencial. Uma subtrama envolvendo um casamento (em que a mãe do noivo é interpretada por Irene Ravache) parece estar ali apenas para prolongar o filme, que, em última instância é uma longa propaganda, passando por uma revista, uma marca de iogurte e culminando em Lulu Santos.
(Os Homens São de Marte... E é pra Lá que Eu Vou! - 2014)
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sábado, 13 de setembro de 2014
A Imagem que Falta (2013)
Os personagens são de barro, mas a história é real.
Em um trabalho artístico impecável e com uma narrativa incrível e inusitada, Rithy Panh recria a história de sua família quando o Khmer Vermelho dominou Camboja.
Através de uma montagem com antigas imagens do período, que vai entre 1975 a 1979, nos é ilustrada uma narrativa cruel das atrocidades sofridas por diversos cambojanos. Uma crítica à autoridade comunista instalada no país e à desumanização imposta à sociedade.
Um trabalho que vale a pena ser visto por todos e jamais esquecido.
Nomeado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (Camboja).
(L'Image Manquante - 2013)
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terça-feira, 9 de setembro de 2014
O Grande Hotel Budapeste (2014)
Bem-vindos à República (imaginária) de Zubrowka, país situado nos confins do leste europeu e que abriga um hotel que reina no alto de uma montanha. Tanto o país quanto o hotel foram afetados por grandes acontecimentos no século XX : a belle époque cedeu lugar a um crescente fascismo, que culminou com uma guerra. Como se não bastasse, o país fez parte do bloco comunista. Eis o pano de fundo em que se desenrola "O Grande Hotel Budapeste", novo filme de Wes Anderson.
O elenco de "O Grande Hotel Budapeste" é um verdadeiro desfile de grandes atores: Ralph Fiennes (M. Gustave, o concierge), Jude Law (jovem escritor), Adrien Brody (o vilão Dmitri), Edward Norton (o militar Henckels), Bill Murray (o amigo de Gustave, M. Ivan), sem falar na memorável atuação de Tilda Swinton, irreconhecível na pele de uma milionária octagenária, Madame D. Seria injusto não mencionar a excelente atuação do novato Toni Revolori (Zero, fiel escudeiro do concierge) e da bela Saoirse Ronan (Agatha), sua namorada.
Além desta constelação de talentos, o filme impressiona pela fluidez com a qual a ação se desenrola. Tanto os atores, quanto o roteiro, a fotografia, o figurino, tudo foi pensado de modo a fazer da trama de Wes Anderson uma verdadeira alegoria dos eventos que marcaram a Europa no século passado através daqueles que o viveram.
A trajetória do concierge vivido por Ralph Fiennes chega até nós graças ao encontro com aquele que foi seu fiel escudeiro, Zero (na maturidade, interpretado por F. Murray Abraham) com um jovem escritor - espécie de alter-ego do escritor Stefan Zweig (austríaco que, desencantado com os rumos da 2ª guerra, suicidou-se em Petrópolis, em 1942), cujos livros serviram de inspiração na construção do roteiro. Esta parte da ação ocorre nos anos 1960, mas logo seremos transportados aos anos gloriosos do hotel, no começo da década de 1930, quando os corredores eram percorridos pela elite europeia e M. Gustave era um verdadeiro maestro, tendo que lidar com os caprichos dos hóspedes, mas também com a rotina dos empregados - tudo isto sem jamais perder a classe.
"O Grande Hotel Budapeste" é um filme em que cada personagem parece retratar com grande talento os encantos deste microcosmo – e a trama apresenta reviravoltas no melhor estilo Agatha Christie. Visualmente, a sincronia dos movimentos da câmera em relação ao roteiro e às nuances de interpretação remete a filmes como Delicatessen (de Jean-Pierre Jeunet, 1991). O edifício usado nas filmagens foi uma antiga loja de departamentos localizada em Görlitz, cidade alemã junto às fronteiras com a Polônia e a República Tcheca.
Nomeado a 9 Oscar: Melhor Filme, Direção (Wes Anderson), Roteiro Original, Fotografia e Edição. Venceu nas categorias de Direção de Arte, Figurino, Maquiagem e Trilha Sonora.
(The Grand Budapest Hotel - 2014)
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domingo, 7 de setembro de 2014
Contracorrente (2009)
O peruano "Contracorrente" é um pequeno filme de grande alcance, que marca uma bem-sucedida estreia em longas do peruano Javier Fuentes-Léon, que também assina o roteiro. A história pode ser definida como o dia em que "Dona Flor e Seus Dois Maridos" encontra "O Segredo de Brokeback Mountain" – com ênfase na melancolia do segundo, ao invés da comédia do primeiro.
"Contracorrente" se passa num pequeno vilarejo no Peru, que parece perdido no tempo e no espaço. Não fossem algumas bugigangas tecnológicas, podia-se pensar que a história se passa há algumas décadas. Ao menos, a mentalidade local parece parada no passado remoto.
Quando o filme começa, o pescador Miguel (Cristian Mercado) tem um romance com o fotógrafo e pintor Santiago (Manolo Cardona). Não seria nada demais, não fosse o primeiro casado com Mariela (Tatiana Astengo), que está grávida. A relação entre os dois sempre acontece ao longe, em praias isoladas, onde sozinhos podem viver o seu amor.
O pescador Miguel é um personagem com um conflito muito grande: apaixonado por Santiago e também por sua mulher, ele fica dividido entre o dever e seu coração. Na vila onde moram, o fotógrafo é visto com hostilidade, ninguém fala com ele e crianças atiram ovos em suas janelas.
Mas seu amor por Miguel é tão grande que, mesmo morto, ele continua aparecendo para o pescador – tal qual Vadinho para dona Flor. Porém, aqui não é como o romance de Jorge Amado, ou o filme de Bruno Barreto – não há espaço para risos no inusitado da situação. Santiago conta para Miguel que não consegue abandoná-lo, e o seu amante também não quer isso. É a situação ideal para Miguel: com o outro morto, pode viver seu romance e manter o casamento.
O diretor Fuentes-Léon dribla com criatividade as limitações orçamentárias. O cotidiano do vilarejo incorpora os temas que o diretor pretende discutir com seu filme – como o amor entre dois homens, a descoberta e aceitação da identidade de cada um. As pessoas com quem Miguel se relaciona no seu dia-a-dia (sua mulher, outros pescadores, seu filho) impulsionam a narrativa.
Mas o que traz força para essa história são seus personagens muito humanos e repletos de nuance. Desde o pescador que nem sempre sabe lidar com sua bissexualidade, até o fotógrafo bem resolvido, passando pela mulher de Miguel, que fica dividida entre o amor pelo marido e o preconceito enraizado em sua educação. Nessa educação, aliás, é estranho que homem veja novela – eles têm de gostar de futebol – por isso, Mariela dá um sorriso sem graça quando diz para as amigas que Miguel vê a reprise da brasileira Direito de Amar e gosta muito de Lauro Corona.
Ganhador de diversos prêmios, entre eles o de público do Festival de Sundance, “Contracorrente” é, com sua delicadeza, um filme poderoso. Ao falar do amor, faz um retrato da hipocrisia.
(Contracorriente - 2009)
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