domingo, 18 de janeiro de 2015
Os Boxtrolls (2014)
"Os Boxtrolls" mistura stop motion com desenho à mão e computação gráfica. O espectador logo é apresentado ao trágico sumiço do bebê Trubshaw, que muda a história da cidade com ares vitorianos de Pontequeijo. Isso porque os Boxtrolls, pequenas criaturas envoltas por caixas que habitam o subterrâneo do lugarejo, são incriminados pelo sequestro da criança e perseguidos pelo terrível exterminador Arquibaldo Surrupião.
Ele impõe um toque de recolher à população durante a noite, momento em que os estranhos seres saem pelas ruas de paralelepípedos do local, remexendo lixos em busca de algo de interessante para suas inventivas criações. Assim, não tarda para que o público conheça melhor os Boxtrolls, que mais levam sustos do que os provocam nos outros, além de terem um quê de Minions, com direito à língua própria e fofura quase similar. Basta acompanhar o carinho com o qual eles, especialmente Peixe, cuidam do garoto chamado Ovo.
No entanto, quando a filha do Lorde Roquefort, a jovem Winnie, descobre que um menino humano vive com os Boxtrolls, tão logo se revela os desejos por trás da investida de Surrupião: tudo o que ele quer é trocar o seu chapéu vermelho por um branco, igual ao do Lorde e, assim, sentar-se à mesa com os nobres para degustar queijo, mesmo que isso lhe faça mal.
É evidente que a trama não é um dos pontos fortes do filme, mas a história incita várias discussões sérias que, junto ao bom entretenimento, a tornam interessante para o público adulto também. Uma delas surge da própria criação do Ovo pelos Boxtrolls, na qual é implícita a mensagem de que uma família nem sempre obedece àquela formação clássica “mamãe + papai”, mas nem por isso será pior do que a tradicional.
A questão do preconceito é igualmente marcante, onde o pensamento predominante é de que “se não conheço, repudio, e assim transformo meu medo em repulsa”. Por isso, não é descabida uma possível interpretação de que Os Boxtrolls, com seu impecável design de produção, faria da fictícia cidade europeia de Pontequeijo uma representação de todo o continente no início do século XX, ao mostrar o genocídio das pequenas criaturas do título, executado por Surrupião e seus capangas.
Falando na equipe do vilão, fora o malvado Sr.Rude, a dupla formada pelo Sr. Picles e o Sr. Truta faz uma série de indagações existenciais e filosóficas durante a animação, especialmente sobre o bem e o mal a partir de suas próprias ações e, consequentemente, acerca da estrutura da trama em si. A metalinguagem vai além na cena exibida durante os créditos, que não apenas permite avaliar a dimensão do trabalho que é fazer um stop motion e faz homenagem aos profissionais da produção, mas menciona outro debate, até religioso, sobre o livre arbítrio.
No mais, o filme deixa clara à plateia a ideia de que é possível se superar, transformando sua própria natureza, mas que há condições de fazer algo mais: mudar o mundo à sua volta para fazê-lo se adaptar à sua realidade.
Nomeado ao Oscar de Melhor Filme em Animação.
(The Boxtrolls - 2014)
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Como Treinar o Seu Dragão 2 (2014)
Com o estrondoso sucesso de "Como Treinar ser Dragão", em 2010, o diretor Dean DeBlois não apenas conseguiu garantir uma sequência, mas transformar seu projeto em uma trilogia. Baseado nos livros juvenis de Cressida Cowell, ele poderia então contar a história do herói de forma mais completa, linha em que esta continuação se estrutura.
Cinco anos após as aventuras narradas no primeiro filme, o franzino Soluço e seu dragão de estimação, Banguela, trouxeram harmonia para seu vilarejo, na ilha de Berk. Suas populações de humanos e dragões se dão tão bem que o líder local, Stoico – O Imenso (Gerard Butler), decide colocar o rapaz como seu sucessor.
O problema é que Soluço não se dá bem com a ideia de autoridade, pensando em si próprio como um espírito livre, e prefere passar seus dias pesquisando a geografia regional. Em suas incursões pela costa, acompanhado por Banguela, o herói se depara com dois conflitos importantes.
O primeiro é a zelosa protetora de dragões, Walka (Cate Blanchett), sua mãe até então dada como morta. Como uma guerreira, protege milhares de bichanos em uma espécie de reserva natural do grande inimigo Dragon (Djimon Hounsou), o segundo problema de Soluço.
Encantador de dragões, o vilão os captura para formar um exército invencível. Ele já fez parte até mesmo do passado de Stoico, quando ameaçou e matou com seus poderes quase todos líderes vikings que passaram por seu caminho.
Como no primeiro filme, o herói deverá encontrar dentro de si a força para ser líder e transformar seu entorno, caótico com a chegada de Dragon. Para isso contará com a ajuda não apenas dos pais, mas também de sua namorada Astrid (America Ferrera) e os gêmeos engraçados Cabeçaquente (Kristen Wiig) e Cabeçadura (T.J. Miller).
Agora com 20 anos, Soluço segue em sua jornada para ser um grande viking. Não deixa de ser importante que os problemas do herói tornam-se mais complexos com a idade. Chefiar seu povo, casar, armar um exército são alguns dos desafios desta nova fase. Dean DeBlois amadurece seus personagens, mas consegue, ainda assim, fazer um dinâmico filme juvenil.
Nomeado ao Oscar de Melhor Filme em Animação.
(How to Train Your Dragon 2 - 2014)
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domingo, 11 de janeiro de 2015
Festa no Céu (2014)
A animação "Festa no Céu" parte de um dos festejos mais populares no México: o Dia dos Mortos. Isso pode levar alguns a pensar em algo mórbido, mas é um engano. "Festa no Céu" começa numa cidade americana qualquer onde um grupo de crianças bagunceiras são obrigadas a visitar um museu. Logo a guia que as recepciona mostra que o passeio pode ser bem mais animado do que imaginam. Ela contará para eles a história de três jovens mexicanos e um triângulo amoroso que envolve a vida e a morte.
Maria , é rica, e feliz e livre, não segue muito as convenções da sociedade mexicana, para desespero de seu pai viúvo. Seus melhores amigos são Manolo jovem de uma dinastia de toureiros que sonha em ser músico, e Joaquin, cuja aspiração é ter respeito e admiração. Dois deuses - A Morte e Xibabla fazem uma aposta sobre qual dos dois garotos conquistará o coração da menina.
Ela é mandada para um colégio interno e, quando volta, reencontra seus amigos: Manolo, a contragosto, tenta uma carreira como toureiro, enquanto Joaquin se torna herói de guerra graças a um amuleto que recebeu de Xibabla.
A Morte está sempre rondando os personagens. Quando Manolo pensa que Maria morreu, ele vai para o Mundo dos Eternizados, para onde vão as almas das pessoas que são amadas. Chegando lá, encontra sua mãe e todos seus ancestrais toureiros. Esse é um lugar de colorido e festas, onde, curiosamente, os mortos celebram a vida. Ao descobrir que Maria não está ali, resta-lhe, então, procurar no Mundo dos Esquecidos – um lugar sombrio. Já no Mundo dos Vivos, a cidade onde moram está ameaçada por um monstro conhecido como Chacal e a sua gangue de bandidos.
O visual de cada um dos mundos é bastante distinto – variando nas formas e colorido - enquanto os personagens, embora sejam um desenho, imitam bonecos de madeira no formato e textura. A riqueza de detalhes em ambos os casos é impressionante.
(The Book of Life - 2014)
Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014)
“Não há duas palavras mais nocivas do que ‘bom trabalho’”, diz o implacável regente Fletcher ao seu baterista prodígio Andrew. Com seus métodos cruéis e coercitivos de ensino, acredita que a complacência gera mediocridade. Será essa relação de abuso verbal e terror psicológico em busca da genialidade o ponto central do drama "Whiplash – Em busca da Perfeição."
J.K. Simmons encarna Fletcher com tal vigor, como o professor do respeitado conservatório de música, que seus insultos, numa verborragia atroz, fariam tremer até mesmo o jazzista Buddy Rich, uma lenda da bateria. Uma atuação seguida de perto pelo jovem ator Miles Teller.
Teller é, aqui, Andrew, que tem a sorte de ser selecionado para a banda de Fletcher, mesmo sendo calouro no conservatório. Assim que entra no grupo, no entanto, é alvejado por gritos, tapas na cara e até uma cadeira voadora, pois não entra no compasso correto imaginado pelo tutor e regente. É só o início das provações do rapaz, que aceita os abusos visualizando um futuro glorioso.
Entende-se a perseverança de Andrew também pela sua personalidade. Sem amigos, vê na própria família inúmeras limitações, não condizentes com o futuro “entre os grandes do jazz” que almeja. Em uma cena, termina com a namorada Nicole (Melissa Benoist), em um cortante monólogo no qual explica porque o fato de continuarem juntos só irá atrapalhar seu caminho para o sucesso.
Quanto mais Fletcher desfere humilhações, mais o rapaz se esmera na prática, que deixa quase sempre suas mãos em carne viva. Como não há trégua, resta saber até quando o Andrew resistirá a esse aprendizado.
Chazelle, que também é o diretor de fotografia, é inventivo em seu apurado jogo de câmera que, junto à trilha sonora e à intensidade psicológica do que se vê na tela, transforma os ensaios da banda em batalha campal. Conceito muito adequado ao conflito que impinge ao espectador.
Nomeado ao Oscar de Melhor Filme, Roteiro Adaptado. Vencedor nas Categorias: Edição, Mixagem de Som e Ator Coadjuvante (J.K. Simmons)
(Whiplash - 2014)
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Vencedor do Oscar
sábado, 10 de janeiro de 2015
Uma Aventura Lego (2014)
Emmet é um sujeito comum. Acorda cedo, pega o seu guia para uma vida feliz e alegre e segue à risca as regras para ser feliz – que envolvem vestir roupas e cumprimentar aos vizinhos, entre outras coisas. Ele é um peão de obra ingênuo e feliz na sua ignorância. Pouco importa que o mundo onde vive é dominado por um ditador que atende pelo nome de Senhor dos Negócios. E o fato de ser um pequeno brinquedo de plástico parece não ser um problema.
Ele é o protagonista da animação "Uma aventura Lego", e é também a última esperança para sua raça. Emmet e seus semelhantes vivem subjugados por um ditador que, agora com uma arma poderosa, pretende acabar com os movimentos de quem o desafiar.
Uma profecia, no entanto, diz que o homem que encontrar a Peça de Resistência será o herói capaz de acabar com os poderes do Senhor dos Negócios. Em sua ingenuidade e boa vontade, Emmet poderá ser esse salvador. A última esperança para um grupo de dissidentes que inclui Batman, Super-Homem, Mulher Maravilha, Gandalf, Dumbledore e outros, ele é levado ao grupo por Lucy, garota rebelde que parece uma versão Lego da heroína da trilogia Millenium: Lisbeth Salander.
Uma aventura Lego segue mais ou menos a cartilha da jornada de um herói, e, nesse sentido, é óbvio. Ao mesmo tempo, as cores vibrantes, os personagens carismáticos e o ritmo que beira a histeria tornam-no um filme muito especial. É bizarro ver esses bonequinhos num mundo de bloquinhos coloridos vivendo e agindo como humanos – e nessa bizarrice reside a graça do filme.
"Uma Aventura Lego" prega, em sua essência, uma exaltação dos laços de afeto em detrimento dos valores deturpados da sociedade de consumo. O que não deixa de encerrar um certo paradoxo já que, em seus 100 minutos, o longa não deixa de parecer uma propaganda estendida da Lego.
Nomeado ao Oscar de Canção Original ("Everything is Awesome").
(The Lego Movie - 2014)
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domingo, 4 de janeiro de 2015
Branca de Neve (2012)
O drama espanhol "Branca de Neve" parte do famoso conto dos irmãos Grimm, e até segue a maior parte dos elementos do original. Mas esta adaptação sombria está longe de ser um filme infantil. Sem diálogos e em preto e branco, o longa de Pablo Berger ganhou o prêmio Goya – uma espécie de Oscar espanhol – nas principais categorias, entre elas filme e atriz, para Maribel Verdú, que faz uma madrasta má adepta do sadomasoquismo.
Embora possa lembrar o oscarizado O Artista, também feito nos mesmos moldes, "Branca de Neve" começou a ser planejado há quase uma década, até que finalmente o diretor conseguisse produtores interessados em financiá-lo. O longa é situado na Sevilha do começo do século passado, e a estética vai ao encontro daquilo que se narra, remetendo à dos filmes daquela época.
Antonio Villalta (Daniel Giménez Cacho) é um toureiro, o mais famoso e adorado da Espanha. Porém cegado por sua vaidade, não percebe que está correndo risco, e quando é ferido fica à beira da morte. Enquanto isso, sua esposa (Inma Cuesta) dá à luz a uma menina e morre. A garota, Carmencita (Sofía Oria), cresce aos cuidados da avó (Ángela Molina). Já o toureiro, que ficou paraplégico, casa-se com a enfermeira interesseira que tratou dele no hospital, Encarna (Maribel Verdú).
Encarna segue uma trajetória de mera enfermeira a rainha malvada, dominando o casarão dos Villalta – trancando o marido no andar superior e tomando o motorista (Pere Ponce) como seu amante. Com seus olhos grandes e rosto expressivo, a atriz domina o filme, transformando-se no centro da história. Mas encontra rivais à sua altura, primeiro na pequena Sofía Oria e, mais tarde, em Macarena García, que interpreta Carmen quando adolescente.
Com a morte da avó, a menina é mandada para a casa do pai, com quem nunca teve contato. A madrasta a proíbe de subir para o segundo andar. Porém, a menina tanto faz que reencontra o toureiro, solitário numa cadeira de rodas preso a um quarto. Se, num primeiro momento, há estranhamento entre eles, com o tempo se tornam amigos, e ele lhe ensina técnicas de tourada. Percebendo a situação, Encarna obriga o motorista a matar a menina, mas ele não consegue. Por uma fatalidade, ela fica com amnésia e acaba adotada por seis (e não sete) anões toureiros, que a chamam de Branca de Neve.
A subversão do cinema de Berger aqui se faz tanto na forma quanto no conteúdo, ao agregar novos valores a uma história tão conhecida. Não chega ao radicalismo do português João Cesar Monteiro, em cujo Branca de Neve (2000) a tela ficava preta, sem qualquer imagem, boa parte do tempo. O que o cineasta espanhol buscou aqui foi o que há de obscuro nessa história que, no fundo, é o embate entre duas mulheres ou entre a pureza e a decadência. O preto e branco da fotografia parece evidenciar os aspectos mais grotescos da história.
(Blancanieves - 2012)
Rio 2 (2014)
Sequência da animação de sucesso de 2011, "Rio 2" repete os mesmos elementos e formas de seu original, e ainda assim, não tem o mesmo charme que o primeiro filme. Talvez seja exatamente por isso – não há muita novidade na animação dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha.
Talvez o filme, não devesse nem se chamar Rio, já que a ação se passa quase na totalidade no Amazonas. Agora, Blu e Jade levam uma vida tranquila com seus três filhos pequenos num santuário, onde as ararinhas azuis são protegidas – pois são os únicos exemplares da espécie. Mas, quando os cientistas Tulio e Linda veem outra ave igual a eles na Amazônia, o quarteto parte para lá para encontrá-la.
Trocam-se os clichês do Rio carnavalesco, com praia, favela e gente bronzeada, pelas cores e animais da floresta. Blu, Jade e companhia (o que inclui outras aves de quem são amigos) reencontram a família dela e descobrem que o pai da ararinha é o líder do grupo. Além disso, a região está ameaçada pelo desmatamento.
Também volta à cena a invejosa cacatua Nigel, que agora tem uma fã: uma rã venenosa, que, apesar de apaixonada por ele, só o admira de longe, pois tem medo de matá-lo. Além disso, há um tamanduá mudo que se veste de Charlie Chaplin, e é uma espécie de faz-tudo da ave. Sem dúvida, essas duas personagens novas são a melhor parte do filme.
Nem toda a boa vontade de Saldanha, o colorido das imagens e a fofura dos personagens são capazes de disfarçar a falta de novidades. Sem muita história para contar, Rio 2 apela aos números musicais.
(Rio 2 - 2014)
sábado, 3 de janeiro de 2015
Operação Big Hero (2014)
"Operação Big Hero" leva o Japão ao Ocidente, apresentando a híbrida metrópole de San Franstokyo, fusão da capital nipônica com a cidade californiana que abriga um grande número de imigrantes orientais e descendentes. Além da mistura da Golden Gate e das típicas ladeiras e casas de São Francisco com os arranha-céus e arcos de Tóquio, une-se a paixão japonesa pela robótica ao espírito tecnológico do estado norte-americano de onde surgiram as maiores empresas da área de tecnologia, no Vale do Silício.
Neste cenário, o público conhece o protagonista Hiro Hamada, um adolescente-prodígio que usa sua inteligência para construir minirrobôs que disputam lutas clandestinas, atividade em que ele ganha seus trocados. Seu irmão Tadashi, modelo para o garoto desde que ficara órfão na tenra idade, consegue convencer o jovem a utilizar melhor seus conhecimentos, levando-o para a universidade onde realiza pesquisas avançadas. Mas aí uma tragédia muda os rumos da vida de Hiro.
Ao conhecer o robô “agente de saúde” chamado Baymax, resultado do projeto ao qual seu irmão se dedicava, ele decide iniciar seu plano de vingança. Nele, estão incluídos o grande autômato de vinil e, posteriormente, os amigos de Tadashi no centro de pesquisa: a alternativa GoGo, o metódico Wasabi, a delicada Honey Lemon e o tranquilão Fred. O grupo de nerds forma uma aliança de super-heróis que, em vez de superpoderes, utiliza aparatos que são frutos de seus estudos. Uma grande sacada do filme, pois torna a ciência algo interessante para o público infantil.
Embora haja certa surpresa na revelação da identidade do vilão, ainda assim a dinâmica da luta entre os jovens e o malvado Yokai não foge do comum. Ainda assim, pelo menos a relação de Hiro com seu robô foi primorosamente construída. Com um corpo inflável e estrutura que remetem ao homem-marshmallow do Caça-Fantasmas e ao mascote da Michelin, mais a fofura do Totoro e de outras criaturas de Hayao Miyazaki – uma excelente influência japonesa para esta animação hollywoodiana –, Baymax é puro carisma, não só por cenas impagáveis dele tentando lidar com seu porte avantajado ou acidentes de percurso. Muito mais porque, por ter sido construído com a finalidade de fazer seus pacientes não sentirem mais dores, ele faz de tudo para aplacar o sofrimento do garoto, proporcionando momentos tocantes.
Constituindo uma abordagem totalmente positivista da tecnologia, quando não se dispõe a destruir e sim a “consertar” as pessoas, o gigante de vinil serve de bússola moral ao protagonista, como aquele ser diferente que mostra a humanidade aos próprios seres humanos.
Vencedor do Oscar de Melhor Filme em Animação.
(Big Hero 6 - 2014)
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Vencedor do Oscar
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
O Abutre (2014)
Protagonista e produtor do longa, o ator Jake Gyllenhaal empenhou-se visivelmente na construção do personagem de Louis Bloom, que vem lhe valendo indicações em premiações importantes, caso do Globo de Ouro e do Sindicato dos Atores. Seu esforço certamente não se esgota no aspecto físico, ainda que impressionem a perda de 15 kg e o rosto encovado em que os olhos esbugalhados se destacam. O personagem é o habitante ideal dos becos de Los Angeles, onde procura, aflito, algum meio de sobrevivência no desemprego.
Uma noite, ao presenciar um grave acidente de automóvel, em que a vítima ferida ficou presa nas ferragens, Louis descobre que esse tipo de situação é um prato cheio para repórteres free lancers, que chegam com suas câmeras junto com a polícia e os bombeiros, às vezes até antes deles. Homem solitário, de quem não se sabe o passado e cujas relações humanas são inexistentes – a internet é sua única fonte de informação -, Louis descobre ali uma espécie de vocação. Antes, sofre para descobrir do que precisa, já que veteranos como Joe Loder (Bill Paxton) não estão a fim de entregar o ouro a nenhum concorrente em potencial.
Correndo por fora, por seus próprios meios Louis consegue uma câmera e percebe que o segredo é entrar na frequência do rádio da polícia. A partir daí, ele se torna um perdigueiro das histórias de sangue, perseguindo acidentes, tiroteios, todo tipo de crime violento. É assim que ele encontra um meio de se afirmar no mundo.
Uma parceira nesta nova vida é Nina Romina (Rene Russo), veterana editora de uma emissora de TV de segunda linha, em que o trabalho de Louis começa a despontar, especialmente porque ele começa a seguir todos os conselhos dela, sem nenhum escrúpulo. Criador e criatura se completam num círculo vicioso, ainda que humano, que sintoniza a decadência, o medo de perder o espaço, a irrelevância num mundo marcado pela competição e a sede de sangue alheio, que satisfaz um público voraz, uma audiência crescente. "O Abutre" não foi feito para embalar o sono de ninguém, antes, para assombrar consciências sobre fenômenos que, se não são novos, continuam sinistramente atuais.
Nomeado ao Oscar de Roteiro Original.
(Nightcrawler - 2014)
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Oscar 2015
sábado, 27 de dezembro de 2014
O Menino e o Mundo (2013)
"O Menino e o Mundo", de Alê Abreu (Garoto Cósmico) é um filme único – seja pela sua estética, seja pelo tema e a abordagem. Ao contrário da histeria e dos exageros de tantas animações recentes, aqui se prima por uma estética minimalista, que ganha ainda mais vida com seu colorido vibrante.
Escrito dirigido e montado por Abreu, o longa acompanha a jornada do Menino em busca do pai que saiu de casa buscando melhores condições de vida para a família. É um filme, claro, para o público infantil – mas não apenas. Há o lúdico, o ingênuo e engraçado, que vai falar direto às crianças. Mas é também um filme político, pois na trajetória do protagonista atravessam-se os diversos estágios que o capitalismo conheceu ao longo dos séculos.
O enredo começa com a família morando numa pequena fazenda, onde plantam para consumo próprio. O Pai, a Mãe e o Menino vivem uma vida simples, mas repleta de carinho e música. Quando surge a ideia de produção – que envolve patrão e empregado – esse pequeno paraíso desaba. A ida do Pai para a cidade é um sintoma da industrialização, do trabalho assalariado, da mecanização e repetição do gesto de trabalho, e, também, do aumento da exploração.
A cidade ao mesmo tempo se moderniza e evolui desgovernadamente, precisando lidar com as consequências. A cada novo estágio da produção, novos problemas surgem, o que inclui a perda da individualidade, até culminar no mundo globalizado, onde o centro explora a periferia em nível mundial. O ponto de vista do filme nunca abandona o olhar ingênuo do Menino, que assiste a tudo sem compreender direito todas as implicações – no entanto, essa lacuna é suprimida pelo público (especialmente adulto), capaz de compreender o significado mais amplo de cada cena.
Da dialética entre o Menino e o Mundo surge o enfrentamento, num primeiro momento. Ao mesmo tempo, é esse próprio mundo que está sendo destruído com o avanço do capitalismo. Nesse momento, rompe-se o lúdico e entram em cena momentos documentais de filmes como Iracema, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, ABC da Greve e Ecologia, ambos de Leon Hirszman, mostrando a degradação ambiental, estágio máximo a que chega a distopia futurista retratada no filme. Porém, é claro, fala-se do presente, e, nesse sentido, o filme serve com um sinal de alerta para as crianças.
Praticamente sem diálogos – algumas frases são faladas de trás para frente, como o nome do protagonista Oninem – os sons são fundamentais para contribuir na expressão dos sentimentos e na evolução da trama. O garoto guarda uma memória do pai – o som que ele produzia com uma flauta, e é essa lembrança que o guia na busca. A trilha sonora, composta por Gustavo Kurlat e Ruben Feffer, conta com a participação de Emicida, Naná Vasconcelos, GEM – Grupo Experimental de Música e Barbatuque.
As escolhas ousadas e arriscadas do diretor e sua equipe mostram sua razão de ser a cada cena – como outra coisa impressionante, o uso do branco. Com "O Menino e o Mundo", Abreu fez um pequeno milagre, um manifesto anticapitalista necessário e instigante que merece ser duradouro e visto por crianças e adultos também de muitas gerações por vir.
(O Menino e o Mundo - 2013)
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Indicado ao Oscar,
Oscar 2016
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Para Sempre Alice (2014)
A Dra. Alice Howland (Julianne Moore) é uma renomada professora de linguistica. Aos poucos, ela começa a esquecer certas palavras e se perder pelas ruas de Manhattan e assim é diagnosticada com Alzheimer.
A doença coloca em prova a força de sua família. Enquanto a relação de Alice com o marido, John (Alec Baldwin) se fragiliza, ela e a filha Lydia (Kristen Stewart) se aproximam.
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Julianne Moore).
(Still Alice - 2014)
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Vencedor do Oscar
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
A Teoria de Tudo (2014)
Aos 73 anos recém-completados, Stephen Hawking é um fenômeno. Misto de cientista sério com celebridade, autor de bestsellers como Uma Breve História do Tempo, uma mente brilhante aprisionada num corpo travado pelos efeitos da esclerose lateral amiotrófica.
Já retratado em documentários, o autor inglês está no centro de uma cinebiografia, "A Teoria de Tudo", que adapta as memórias de sua primeira mulher, Jane Wilde Hawking, e coloca em primeiro plano o homem, antes do intelectual, e o longo relacionamento dos dois.
Evidentemente, o casamento entre Stephen e Jane, que se conheceram na universidade nos anos 1960, tem tudo para fugir ao convencional, a partir de sua própria concretização. Afinal, quando eles se casam, ele já recebeu o terrível diagnóstico de sua doença e uma virtual condenação à morte, uma vez que os médicos previram na época que ele não sobreviveria mais de dois anos. Isto há 50 anos atrás.
Mesmo afetado dramaticamente pelas progressivas perdas motoras de Stephen – que não o impedem de ter uma vida amorosa, três filhos e até brincar com eles -, o relacionamento se mantém e é o principal foco da história. Uma opção lógica, já que aqui se assume o ponto de vista de Jane.
Se recebeu críticas por essa predominância do aspecto pessoal sobre o científico, é certo que o filme não perde de vista o notável esforço de Hawking em explorar teorias ambiciosas, em torno da origem do universo e do início do tempo. Embora se dê uma ênfase um pouco exagerada à sua falta de fé religiosa, terreno de disputa com a mulher.
Nem por isso a história embarca no moralismo, retratando com admirável franqueza o modo como o casal enfrenta as fissuras do casamento quando entram em cena outras pessoas – como o professor de canto Jonathan (Charlie Cox) e a nova enfermeira, Elaine Mason (Maxine Peake). Expor estas particularidades do cientista nunca resvala para a vulgaridade. Antes, humaniza sua figura, singularmente bem-humorada, injetando mais realismo neste retrato, certamente parcial.
Nomeado a 5 Oscar: Melhor Filme, Ator (Eddie Redmayne), Atriz (Felicity Jones), Roteiro Adaptado e Trilha Sonora. Venceu na categoria de Melhor Ator (Eddie Redmayne).
(The Theory of Everything - 2014)
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Vencedor do Oscar
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
Aviões (2013)
Esta produção conta uma história sobre perseverança e coragem. Dusty é um avião pulverizador, isto é, passa seus dias espalhando vitaminas e fertilizantes em lavouras. Porém, ele quer ser mesmo um avião de corrida.
Apesar da descrença de seus pares, ele se candidata para uma difícil e mortal corrida ao redor do planeta, contra competidores de várias nacionalidades, incluindo aí a brasileira Carolina Santos Duavião (Sangalo). Um rol de personagens divertidos, como El Chupacabra, uma aeronave mexicana dramática e falastrona; Bulldog, o inglês que não chora por ser justamente inglês; e o vilão Ripslinger, que não perde um campeonato.
Dusty não deve apenas vencer seus concorrentes, muito mais potentes. Acima de tudo, precisa estar à frente daqueles que caçoam dele por perseguir seus sonhos e, ainda, superar seu curioso medo de altura. Esse é o mundo “acima de 'Carros'”, como brinca a própria propaganda.
O que incomoda em Aviões, no entanto, não é o fato de ser uma produção mediana, mas usar o sucesso do original Carros para vender este filme, que sequer é co-produzido pela Pixar. Não é incorreto, já que a Disney comprou a empresa em 2006, mas a sensação de puro apelo comercial é marcante.
(Planes - 2013)
sábado, 13 de dezembro de 2014
Uma Secretária de Futuro (1988)
Em Nova York, Tess McGill (Melanie Griffith) é secretária de escritório que lida com o mercado de ações. Demitida, consegue um novo emprego com Katharine Parker (Sigourney Weaver) e expõe suas ousadas ideias à sua chefe, ambicionando crescer na carreira.
Quando Katharine sofre um acidente e se afasta do escritório, Tess toma seu lugar e inicia uma inteligente parceria com Jack Trainer (Harrison Ford), com quem acaba se envolvendo romanticamente.
Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("Let the River Run"). Indicado nas categorias: Melhor Filme, Atriz (Melanie Griffith), Atriz Coadjuvante (Joan Cusack e Sigourney Weaver) e Direção (Mike Nichols).
(Working Girl - 1988)
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Vencedor do Oscar
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Interestelar (2014)
Em sua nova ficção científica, "Interestelar", o diretor inglês Christopher Nolan mira em "2001: Uma Odisseia no Espaço" e acerta em "Gravidade" – ou seja, aspira uma profundidade filosófico-existencial, mas cai na superficialidade da fascinação por efeitos especiais e truques, além de um falatório mais longo do que uma viagem espacial. Em todo caso, a força do filme está em suas imagens – já que sua trama é óbvia, beira o banal.
A Terra vive seus últimos dias. Crises generalizadas levaram muitas pessoas a abandonar suas profissões, tornando-se fazendeiro para produzir os alimentos básicos. Mas o solo de todo o mundo está tão degradado, por culpa de uma praga que assola as plantações, além de uma persistente nuvem de poeira, que cientistas começam a pensar na possibilidade de explorar novos planetas a serem colonizados. Se esse é o pano de fundo de "Interestelar", é na relação entre pai e filha que Nolan – que assina o roteiro com seu irmão, Jonathan Nolan - coloca o peso do filme.
Com a destruição das plantações, Cooper (Matthew McConaughey), que cultiva milho em sua fazenda, está com os dias contados. Um dia, ele foi piloto e sonhou em ser astronauta, mas as condições econômicas forçaram a NASA a fechar o programa espacial. Sua filha caçula, Murph (Mackenzie Foy), compartilha da paixão pelo espaço, tanto que um dos problemas que ela enfrenta na escola é acreditar que as missões à Lua realmente aconteceram – afinal, a história foi reescrita, e essas viagens agora são descritas apenas como propaganda para forçar a quebra da União Soviética.
Mas Cooper descobre que a NASA não só ainda existe como mantém um programa secreto para pesquisa da possibilidade de estabelecimento dos humanos em outro planeta. O mentor é Professor Brand (Michael Caine), responsável pelo Projeto Lazarus. A chance reside num buraco próximo a Saturno, capaz de permitir o acesso a uma outra galáxia, onde existem alguns planetas com possibilidades de servir de habitat.
A equipe é composta por Amelia (Anne Hathaway), filha do Professor Brand, Romilly (David Gyasi), um astrofísico, Doyle (Wes Bentley), o copiloto, e robô TARS (dublado por Bill Irwin). As cenas dentro da espaçonave são as mais fracas do filme, e os personagens não dizem muito a que vieram – especialmente Amelia, uma personagem sem graças ou nuances, candidata ao posto de chata da missão.
Os astronautas hibernam durante a viagem de 2 anos, que na Terra equivalem a 23 anos. Nesse período, a mudança mais considerável é que Murphy se tornou uma cientista e é interpretada por Jessica Chastain – que tem problemas com o pai que, na visão dela, a abandonou. E é esse laço que impulsiona o filme – afinal, Cooper está fazendo todo os sacrifícios pela filha e o filho (adulto, interpretado por Casey Affleck) e futuros netos.
De toda a promessa e jargão cientificista, "Interestelar" oferece muito pouco de ficção científica e se contenta apenas com um drama meloso sobre amor paternal e o destino da humanidade – o que faz pensar no risco que podemos estar correndo.
Nomeado a 5 Oscar: Direção de Arte, Trilha Sonora, Mixagem de Som, Edição de Som e Efeitos Especiais. Venceu na Categoria Efeitos Especiais.
(Interstellar - 2014)
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Filmes,
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