segunda-feira, 25 de julho de 2011

Meia-Noite em Paris (2011)



Recorrendo mais uma vez à magia que inspirou alguns de seus melhores roteiros, como “A Rosa Púrpura do Cairo” e “Simplesmente Alice”, e sem por isso chegar à ficção científica, Woody elege o improvável Owen Wilson como o passageiro de uma viagem no tempo, rumo aos inquietos anos 20 em sua nova e deliciosa comédia, “Meia-Noite em Paris”, que abriu o último Festival de Cannes.

Transformar Wilson, ator de algumas comédias muito duvidosas, como a recente Passe Livre, no intérprete convincente desta história criativa, aliás, foi a primeira mágica do diretor. Na pele do roteirista Gil Pendler, cujo sonho é trocar Hollywood pela literatura, o ator assume seu costumeiro ar entre ingênuo e abobado, que cai bem, no entanto, a um personagem que descobre por acaso essa porta fantástica no tempo, que lhe permite trocar figurinhas com uma lista invejável de alguns dos maiores artistas da História. Entre eles, Scott e Zelda Fitzgerald (Tom Hiddleston e Alison Pill), Ernest Hemingway (Corey Stoll), Gertrude Stein (uma impagável Kathy Bates), Pablo Picasso (Marcial Di Fonzo Bo), Henri Matisse (Yves-Antoine Spoto) e Salvador Dalí (uma breve e inspirada participação de Adrien Brody).

A porta mágica fica dentro de um calhambeque Peugeot, onde Gil embarca numa noite em que se perdeu pelas ruas de Paris – depois de deixar a noiva Inez (Rachel Adams) sair com outro casal de amigos, em que um deles é Paul (Michael Sheen), um pseudo-intelectual pedante que Gil simplesmente não aguenta mais ver pela frente.

Cabe a ninguém menos do que a primeira-dama francesa, Carla Bruni, abalar a pose de Paul, bem no momento em que ele montava um discurso com algumas imprecisões sobre a vida de Auguste Rodin. Carla interpreta a guia do museu da obra do célebre escultor, um dos locais mais belos de Paris, e tem três cenas no filme, duas ali mesmo, outra num banco diante da catedral de Notre-Dame.

Para quem ama Paris, como o diretor e a maioria da humanidade, o filme é um prazer desde as primeiras sequências, que percorrem alguns dos pontos cardeais da paisagem afetiva da cidade que já foi descrita como uma festa. Esse foi o título, aliás, de um livro do próprio Hemingway, um dos expatriados americanos em Paris que participam ativamente da fantasia viva de Gil.

É numa personagem fictícia, no entanto, Adriana (Marion Cottilard), musa de Picasso, que o filme sintetiza a fantasia romântica que abala Gil mais profundamente, levando-o a reavaliar seu noivado com Inez – a quem cabe, o tempo todo, a função de desmancha-prazeres do noivo sonhador.

Nenhum elemento desta boa receita funcionaria, no entanto, sem um equilíbrio entre a beleza, a poesia, o humor e umas pitadas de discussão sobre o sentido da vida, de estarmos aqui, nesta época, sonhando sempre com outra, geralmente no passado e que idealizamos o bastante para acreditar que foi melhor. Brincando com essa ideia simples, embalada em várias músicas de Cole Porter, “Meia-Noite em Paris” soa afinado como um violino e nunca esquece de fazer sorrir. Às vezes, faz rir muito das piadas com um perfume intelectual, nada pedante, que Woody sempre soube fazer tão bem.

Desta vez, ele acertou em cheio. Se bem que, para aproveitar mesmo a série de boas piadas do roteiro – entre elas, uma em que Gil sugere uma ideia cinematográfica a Luis Buñuel (Adrien de Van) -, o espectador precisa ter um mínimo de informação sobre esta rica galeria de artistas do passado encontrados neste benvindo túnel do tempo. Nada que o público habitual de Woody Allen não possa dar conta.

Vencedor do Oscar de Roteiro Original. Indicado ao Oscar de Melhor Filme, Diretor (Woody Allen) e Direção de Arte.

(Midnight in Paris - 2011)

O Corvo (1963)



O feiticeiro Dr. Erasmus Craven está em luto e sofrendo com a morte de sua esposa, Lenore, há mais de dois anos para o descontentamento de sua filha, Estelle. Em uma noite ao receber a visita de um corvo, o qual descobre ser outro mago,o Dr. Bedlo, que havia sido transformado em um duelo injusto segundo ele, Erasmus descobre que o fantasma de Lenore havia sido visto dentro do castelo de seu maior inimigo, o bruxo Dr. Scarabus. Cada um em sua busca pessoal eles se juntam a Rexford, o filho de Bedlo, e vão ao castelo de Scarabus onde são recebidos com uma hospitalidade obviamente falsa pelo bruxo. Tanto para Bedlo como para Erasmus e Rexford, aquele seria o cenário de uma guerra épica entre dois feiticeiros infalíveis e outro nem tanto, tudo levando a uma terrível descoberta.

(The Raven - 1963)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Hannah e Suas Irmãs (1986)


O último e mais abrangente longa-metragem de uma primorosa série de filmes de Woody Allen que começou com "Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão", este filme, talvez inspirado em Bergman, mas com tonalidades que lembram Renoir, revela a influência dos dois mestres sobre Allen ao traçar as mudanças em vários relacionamentos complicados durante o espaço de um ano. Centrado, como alguns de seus outros filmes, na parte artística e privilegiada de Manhattan, o filme focaliza três irmãs (Mia Farrow, Barbara Hershey e Dianne Wiest), os parceiros das duas primeiras (Michael Caine e Max von Sydow), o ex-marido da primeira (Allen) e alguns amigos e colegas que entram em cena para complicar a ciranda romântica. O próprio Allen está menos à frente do que de hábito e sua neurose hipocondríaca habitual consome menos tempo e empatia do que Caine, que deixa de lado sua fidelidade a Farrow por conta de uma paixonite pela Hershey mais nova. Na verdade, um dos prazeres do filme é a maneira como Allen lida com o escopo da narrativa, maior do que o tradicional. Os personagens são, no mínimo, mais bem acabados do que os anteriores, mesmo quando a abrangência ampliada nos dá um sentido de um mundo maior que é externo ao outro mundo, o que constitui o núcleo ficcional do filme.

Em muitos aspectos, é claro, são as mesmas velhas situações, tipos, até mesmo as piadas antigas, e apesar disso há algo de Checov no filme: a delicada tristeza de vários dos dilemas emocionais, a consciência da dor muito real subjacente às piadas, o amargo e inevitável fato de a morte pairar subentendida no ar o tempo todo, enquanto Woody, o bobo da corte ansioso, encara questões médicas. As piadas não são apenas tiradas espirituosas, mas totalmente plausiveis em termos de personagens e enredo, fazendo justiça a um dos melhores elencos que Allen já reuniu. Ao contrário de outros filmes, sente-se em "Hannah e Suas Irmãs" um sincero tributo às boas coisas que quase fazem com que a vida valha a pena, ao invés da percepção de que a sensação foi forçada (embora Allen houvesse, de fato, chegado a pensar em um final mais sombrio). Um filme "de bem com a vida", no melhor sentido da expressão.

Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest) e Roteiro Original.

Indicado nas categorias: Melhor Filme, Direção, Edição e Direção de Arte.

(Hannah and Her Sisters - 1986)

terça-feira, 5 de julho de 2011

A Era do Rádio (1987)



No início da Segunda Guerra Mundial em Nova York, uma simples família judia tem seus sonhos inspirados nos programas de rádio da época. Em virtude de ainda não existir televisão, as famílias se reuniam ao redor do rádio e cada membro da família tinha seu programa preferido.

Indicado ao Oscar de Direção de Arte e Roteiro Original.

(Radio Days - 1987)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

De Ilusão Também Se Vive (1947)



“De Ilusão Também se Vive” é um trabalho surpreendentemente eficaz, baseado no romance de Valentine Davies. Andando pelas luxuosas ruas de Nova York, o doce senhor Kriss Kringle (Edmund Gwenn) é visto confirmando a uma criança que é realmente o verdadeiro Papai Noel. Pode parecer reconfortante, mas o velhinho também tem um incrível orgulho medieval: ao ver o Papai Noel da loja de departamentos Macy’s bebendo uísque em um desfile de rua, tira-lhe as renas e toma seu posto no trenó, de forma tão impressionante que a executiva da loja, Doris Walker (Maureen O'Hara), o contrata.

A fila para vê-lo aumenta impressionantemente, até que ele é processado por ser um impostor e é defendido por Fred Gailey (John Payne) que acredita na identidade do bom velhinho. Esse não é seu único julgamento, pois também tem de convencer a precoce Susan Walker (Natalie Wood), uma menina de seis anos, filha de Doris, de que ele é o verdadeiro Papai Noel, tendo de entregar-lhe um pai, uma casa e um irmão de presente de natal. Kris Kringle pode ou não ser o genuíno Papai Noel, mas acaba convencendo Susan de que as coisas nem sempre são aquilo que parecem ser.

“De Ilusão Também se Vive” é um filme filosófico. Como provar que Papai Noel existe? É uma coisa meio difícil – como o filme -, baseada em crença. O filme é notadamente feito para crianças, mas tem elementos suficientes para agradar toda a família. O apelo deve estar na figura de Papai Noel, muito bem interpretada por Edmund Gwenn, como um avô de fantasia – com o bolso sem fim.

Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Edmund Gwenn), Roteiro e Roteiro Original. Indicado ao Oscar de Melhor Filme.

(Miracle on 34th Street - 1947)

Anticristo (2009)


Com duas mutilações, morte de uma criança, sexo explícito, o aborto de um animal e uma raposa falante, “Anticristo” apresenta um cardápio variado para todos os paladares. Os elementos supostamente estranhos do filme podem parecer mero sensacionalismo e desviar o foco de algo mais interessante: até onde alguém pode chegar para lidar com a dor? A resposta: veja “Anticristo”. Von Trier criou o longa quando passava por uma depressão profunda e o filme realmente é o trabalho de alguém emocionalmente perturbado. Algumas pessoas livram suas neuras em sessões de análise. Outras, fazendo arte. Ainda bem que von Trier pertence ao segundo caso.

Esse drama psicossexual conta apenas com dois personagens, Ele (Willen Dafoe, que já foi o próprio Jesus no filme de Scorsese, A Última Tentação de Cristo) e Ela (Charlotte). Num belo prólogo, rodado em uma câmera ultralenta, num preto-e-branco límpido, eles transam enquanto o filho pequeno passeia pela casa e mergulha para a morte ao cair de uma janela – não sem antes derrubar pequenas estátuas de três mendigos, chamados de Dor, Luto e Desespero.

Combinando iguais doses de polêmica e genialidade, Von Trier cria imagens tão belas quanto assustadoras como essas que abrem o filme. Mas isso é só o começo. Ao longo de mais de 100 minutos, o longa será construído em cima de opostos, ele/ela, natureza/homem, escuridão/luz e, especialmente, imagens de uma beleza hipnótica contrastando com horrores de revirar o estômago.

A personagem feminina, Ela, é incapaz de lidar com a perda do filho e cai deprimida. O marido, que é psicanalista, pretende tratá-la. Isolados numa cabana numa floresta, chamada Éden (ironia, claro, pois o lugar está mais próximo do inferno), espera que ela supere a dor e o medo. Ele explica que o momento requer “a coragem de estar na situação que te apavora para ver que o medo não é perigoso”. Ela é uma intelectual estudiosa das maldades cometidas contra as mulheres ao longo dos séculos, especialmente o feminicídio – se alguém tem alguma dúvida do que é isso, von Trier o mostrará em close num momento climático.

Embrenhado no Éden infernal, o casal é abduzido por seus demônios pessoais, especialmente quando a natureza – para Ela, “a igreja do diabo” – se volta contra eles. Promovendo atividades para a ajudá-la a superar seu trauma, o marido não será poupado – embora ela culpe mais a si mesma pela morte negligente da criança. O sexo e o prazer sexual, para ela, estão claramente associados à morte, daí a justificava para as mutilações.

Em suas obras mais importante, como “Ondas do Destino” (1996) e “Dançando no Escuro” (2000), von Trier nos mostra que a bondade pode ser punida. Os personagens intrinsecamente bons pagam por sua generosidade. Em “Dogville” (2002) e, mais tarde, na sua sequência, “Manderlay” (2005), o diretor muda esse discurso. Os bons podem se tornar perigosos quando seus atos não são reconhecidos. Aqui, há uma subversão de tudo isso: o mal também é passível de punição.

A natureza é uma força devastadora, assim como uma mãe que sofre com a morte de seu filho. Como diz o trecho da ópera Rinaldo, de Handel, na abertura e encerramento do filme, a personagem feminina pede “deixe-me chorar pelo meu destino cruel (...), que a dor possa romper os laços da minha angústia”. É a personagem se punindo com um sofrimento ainda maior do aquele que ela não consegue superar. Ninguém deve subestimar uma mãe em luto – nem um cineasta depressivo.

(Antichrist - 2009)

sábado, 2 de julho de 2011

Transformers: A Vingança dos Derrotados (2009)


Diante de um robô gigantesco – na verdade, um alienígena – um militar atônito se pergunta, apontando para a geringonça: “Se Deus nos fez à imagem e semelhança Dele, quem fez isso aí?”. Essa mesma perplexidade que passa pela cabeça do personagem pode atingir algumas pessoas durante “Transformers: A Vingança dos Derrotados. Dirigido por Michael Bay que traz no currículo além do primeiro “Transformers” (2007) também “A Ilha” (2005) e “Pearl Harbor” (2001), o longa investe pesado nas cenas de ação e destruição, deixando de lado qualquer fiapo de história ou personagens que pudessem distrair a atenção do público. Este é, aliás, um diretor que já demonstrou gosto por pancadaria e correria pelo simples fato de fazer piruetas com a câmera e usar cortes rápidos – alguns mais rápidos do que um piscar de olhos. Por isso, não existe muita diferença entre ver um embate entre dois Transformers – o que acontece mais vezes do que o necessário ao longo das infindáveis duas horas e meia de filme – e um engavetamento numa rodovia qualquer.

Com seus malabarismos e pirotecnias, ironicamente, Bay dificulta que se aprecie o que em princípio seria o forte de “Transformers: A Vingança dos Derrotados”: os efeitos visuais. É tudo tão rápido que em nenhum momento ele se dá ao trabalho de revelar os detalhes. O que lhe interessa são latarias gigantescas se atracando, perto das quais os humanos somem de tão pequenos e inúteis.

Personagens continuam a não ter muita função no segundo longa da série. O protagonista-humano é o jovem Sam Witwicky (Shia LaBeouf, de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”), que no primeiro filme, ao lado dos Autobots (os Transformers do bem, por assim dizer) salvaram o mundo dos Deceptions (os Transformers do mal). Ele tem um carro amarelo, seu ‘robô-guardião’, que atende pelo nome simpático de Bumblebee.

Sam está de partida para a faculdade e abandonará não apenas os pais, como seu carro e sua namorada, Mikaela (Megan Fox, de “Um Louco Apaixonado”), com quem pretende manter um relacionamento pela internet. Mas ele tem problemas mais sérios desde que tocou um pedaço do Cubo. Além de provocar-lhe distúrbios mentais, o incidente desperta Transformers adormecidos. Agora, Sam passa a ter visões com símbolos estranhos, que ele não identifica mas os Deceptions sabem ser um código que influenciará numa batalha entre os bonzinhos e os vilões.

Essa perseguição que os Decpections promovem contra Sam impulsiona as cenas de briga e transformação dos carros em robôs. Eletrodomésticos também ganham vida quando expostos a algum fragmento do Cubo, proporcionando ao liquidificador a possibilidade de vingar-se dos anos que passou apenas batendo maionese ou fazendo vitaminas. Esses Transformers que estão entre os humanos há anos são protegidos por uma equipe militar especializada, que inclui entre seus membros Josh Duhamel (Turistas).

A partir de um roteiro que leva a assinatura de três escritores, Bay faz as suas pirotecnias de costume, com a câmera girando em 360º, às vezes, lentamente também. Da mesma forma, recorre eventualmente à pieguice que lhe é típica quando tenta injetar drama ou romance ao enredo. Fora isso, além de destruir Xangai e o Cairo, aparentemente só pelo prazer de ver as criaturas acabando com as cidades, “Transformers: A Vingança dos Derrotados” é um típico fruto de sua época, com militares norte-americanos intervindo em qualquer guerra e jovens ultrainteligentes do mesmo país salvando o mundo. Se há um subtexto político no longa, porém, ele logo é enterrado. Alguém menciona de passagem que durante o cataclisma, que “o presidente Obama escondeu-se num bunker no meio dos Estados Unidos”.

Indicado ao Oscar de Melhor Som.

(Transformers: Revenge of the Fallen - 2009)

Eu e o Cara da Piscina (2011)



O filme “Eu e o Cara da Piscina” conta a história de Guilherme, um menino que sente-se atraído por seu melhor amigo, mas tem medo de dizer isso a ele. Através da internet, ele descobre uma maneira de concretizar o seu desejo.

O curta-metragem, que fala sobre a relação de dois jovens garotos e seus desejos mais íntimos em torno de uma piscina, além do prêmio de melhor direção, levou, também, os prêmios de melhor montagem para Denise Marchi e melhor direção de arte para Lívia Santos.



(Eu e o Cara da Piscina - 2011)

Bailão (2009)



A memória de uma geração visitada por seus personagens. O cenário é o centro de uma grande cidade; o enredo a urgência da vida. E o Bailão o ponto de convergência dessas histórias.

(Bailão - 2009)

Um Amor na Trincheira (2003)



Este filme é baseado na história real do soldado Barry Winchell que se apaixona pela transexual Calpernia Addams e é assassinado pelos colegas de quartel.

(Soldier's Girl - 2003)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Desencanto (1945)


Os épicos imponentes da maturidade de David Lean às vezes ameaçam ofuscar os relativamente modestos primeiros trabalhos do diretor. Porém, concentrar-se demais no puro espetáculo de “Lawrence da Arábia” e “Doutor Jivago” significa ignorar algumas das maiores façanhas de Lean. Afinal, apenas um cineasta de primeira grandeza poderia dirigir “Lawrence da Arábia”, e este mesmo domínio da forma está patente nos seus filmes anteriores, embora em escala muito menor.

Lean já havia dirigido três adaptações da obra de Noel Coward quando iniciou “Desencanto”, baseado na peça de um ato do autor chama Still Life. Contudo, a brevidade da peça o forçou a expandir o material e, durante o processo, ele ampliou também seu próprio vocabulário cinematográfico. Contado em flashback, “Desencanto” acompanha o caso amoroso platônico entre a dona-de-casa Laura (Célia Johnson) e o médico Alec (Trevor Howard), que se conhecem por acaso em uma estação de trem. Há obviamente uma conexão entre os dois, porém ambos sabem que o romance não pode ir além de alguns almoços furtivos.

Ao elaborar um dos mais eficazes arranca-lágrimas da história do cinema, Lean realizou uma série de avanços formais que lhe deram rapidamente a reputação de mais do que um mero seguidor de Noel Coward. Para começar, ele retirou a história da estação de trem, acrescentando mais detalhes ao romance malfadado. Explorou também todo aparato cinematográfico à sua disposição; a iluminação, por exemplo, se aproxima do visual grave de suas adaptações posteriores de Dickens, tornando o mais simbólica possível a estação escura e esfumaçada. Os efeitos sonoros também são bem utilizados (especialmente o de um trem acelerando), assim como a música, que incorpora o “Concerto para piano nº 2” de Rachmaninoff como tema do filme.

No entanto, o mais importante é a utilização por parte de Lean de closes frequentes nos olhos de Johnson, que contam melhor uma história do que muitos roteiros. Ela e Howard estão excepcionais nesta que é a mais triste das histórias, cada movimento dos dois prenhe de significado e os diálogos impecáveis repletos de emoções profundas. Um olhar furtivo, um dedo acariciando a mão do outro e um riso compartilhado são praticamente tudo que é permitido a esses amantes desventurados, e Johnson e Howard transmitem belamente essa triste certeza.

Nomeado ao Oscar de Melhor Atriz (Celia Johnson), Diretor (David Lean) e Roteiro.

(Brief Encounter - 1945)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Bíblia (1966)



As maiores histórias do antigo testamento são trazidas para as telas com um domínio e força impressionantes neste filme internacional, que exibe os 22 primeiros capítulos do Gênesis. Esta é a história espetacular do homem, de sua queda, sua sobrevivência e sua fé indomável no futuro.

Dando brilho à grandiosidade épica, temos as interpretações de George C. Scott como Abrão, Ava Garner como Sara e Peter O'Toole como a presença evocativa do anjo de Deus. O lendário John Huston dirige esta obra e também apresenta uma interpretação digna de nota como Noé.

Da abertura do filme em meio ao caos cósmico até sua mensagem de esperança e salvação, “A Bíblia” mantém a todo momento sua característica de uma conquista monumental do cinema

Nomeado ao Oscar de Trilha Sonora.

(The Bible: In the Beginning... - 1966)

Trabalho Interno (2010)


Se alguém procura um mapa da crise econômica mundial que, em 2008, sacudiu mercados, sugou trilhões de dólares em riqueza, causou a falência de grandes instituições financeiras, o desemprego de milhões de pessoas e uma instabilidade sem precedentes em vários países, ele está no documentário “Trabalho Interno”, de Charles Ferguson.

Premiado com o troféu de melhor roteiro de documentário pelo Sindicato dos Roteiristas dos EUA e também com o Oscar de documentário, “Trabalho Interno” chama a atenção, desde o início, pela solidez de sua pesquisa. Lidando com um tema complexo, diversas entrevistas e materiais de arquivo, consegue ser claro e incisivo ao mesmo tempo.

Autor de outro documentário igualmente contundente, “No end in sight” (2007), que dissecou as falsas razões do governo George W. Bush para a guerra do Iraque, o intelectual, ex-palestrante de universidades como Berkeley e o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets), e milionário da indústria do software desde os anos 1990, Ferguson mostra-se um entrevistador altamente preparado – e não raro corrosivo para desavisados, como o ex-assessor do presidente George W. Bush, Glenn Hubbard.

Conciso, didático e detalhado, o filme historia como bancos norte-americanos promoveram agressivamente o financiamento e refinanciamento de hipotecas, mesmo para aqueles que claramente não podiam pagá-las, ao mesmo tempo em que especulavam em cima desse não-pagamento, com lucros astronômicos – caso do grupo Magnetar, de Chicago.

Enquanto crescia a bolha da ciranda financeira, lobistas se empenhavam junto a políticos para que não se aprovasse legislação dificultando seus movimentos - mantendo a desregulamentação iniciada nos anos 1980, com o presidente republicano Ronald Reagan, mantida pelo democrata Bill Clinton, na década de 90.

Não por acaso, negaram entrevistas ao cineasta alguns dos arquitetos e defensores do modelo especulativo, que finalmente quebrou bancos como Goldman Sachs e Lehman Brothers – caso dos ex-secretários do tesouro Larry Summers, Robert E. Rubin, Henry M. Paulson e Timothy F. Geitner, vistos apenas em imagens de arquivo.

É ouvido também um dos poucos a ter enfrentado os mega-especuladores, o ex-procurador geral e depois governador de Nova York, Eliot Spitzer.

Por muitas razões, “Trabalho Interno” é um filme realisticamente sombrio. Primeiro, porque denuncia que os mentores da alucinada ciranda especulativa fizeram-no deliberadamente – o que constitui crime, ainda não punido. Segundo, porque vários desses arquitetos da bancarrota alheia continuam assessorando o governo atual de Barack Obama. Terceiro, porque a universidade, que deveria oferecer um contraponto crítico, foi cooptada, com vários de seus eméritos professores aceitando cargos em conselhos diretores das empresas especuladoras, como consultores do governo (caso de Glenn Hubbard) ou palestrantes pagos regiamente com milhares e milhares de dólares (como John Y. Campbell, de Harvard).

Vencedor do Oscar de Melhor Documentário.

(Inside Job - 2010)

X-Men: Primeira Classe (2011)


Aqueles que acompanham a saga dos protagonistas de X-Men nos quadrinhos podem estranhar as soluções encontradas para explicar a origem dos personagens em “X–Men - Primeira Classe”. A versão dos fatos no cinema está bem longe da criada por Stan Lee e Jack Kirby (“X-Men #1”, 1963), ou de Jeff Parker (“X–Men - Primeira Classe”, 2006), fontes nas quais o roteiro escrito por Sheldon Turner (de “Amor sem Escalas”) e Bryan Singer (“X-Men” e “X-Men 2”) deveria beber.

Descontado esse fato, a adaptação dirigida por Matthew Vaughn (de “Kick-Ass- Quebrando Tudo”) traz às telas um vigoroso reinício para a franquia, reunindo acertadamente humor, drama, ação e efeitos especiais. Muito pela dedicação de Singer em criar uma boa história e as referências pop que o diretor espalha nas cenas.

Depois de uma apresentação inicial sobre a juventude de Charles Xavier e Erik Lensherr, futuramente o Professor X e Magneto, a trama avança para a década de 1960. Já adulto, Charles (James Mcavoy, de “O Procurado”) é um emérito pesquisador de genética, ao lado de sua irmã adotada, Raven (Jennifer Lawrence, de “Inverno da Alma”), a Mística.

Enquanto isso, Erik (Michael Fassbender, de “Bastardos Inglórios”) busca vingança contra Dr. Schmidt (Kevin Bacon), seu algoz durante a adolescência em um campo de concentração. Pelo que se vê na tela, foi o alemão que desenvolveu os poderes de Magneto.

As vidas dos personagens convergem quando a agente da CIA Moira MacTaggert (Rose Byrne) busca Xavier para ajudá-la a enfrentar um grupo de mutantes comandados por Sebastian Shaw. Em meio à Guerra Fria, o vilão pretende provocar um holocausto nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética, deixando o planeta arrasado para os mutantes. Como Sebastian Shaw é, no fim, o Dr. Schmidt, Erik se une à missão da CIA com o pretexto de matá-lo.

O problema é que o criminoso tem em sua companhia um poderoso time (Emma Frost, Azazel e Maré Selvagem) e Xavier precisa encontrar uma equipe para combatê-lo. Esse é o tal início dos X-Men, quando são recrutados os jovens Hank McCoy (Fera), Alex Summers (Destrutor), Angel Salvadore (Angel), Sean Cassidy (Banshee), Armando Muñoz (Darwin) e, claro, a Mística.

Quem conhece o mínimo da história original já pode ver, aí, os fatos discrepantes. Um dos exemplos é a presença de Alex Summers, irmão mais novo de Ciclope, que até então sequer nasceu. Mas não se trata de um erro. Bryan Singer assumidamente reinventa as origens do universo X-Men, à revelia dos fãs de quadrinhos, como já havia feito nas primeiras adaptações ao cinema.

O resultado, no entanto, é engenhoso e traz bons dividendos à bilionária franquia. Vaughn consegue levar bem a narrativa, ajudado pelo bom elenco, em especial James Mcavoy e Michael Fassbender, orientados a dar nuances pessoais aos seus personagens.

Patrick Stewart e Ian McKellen, que interpretaram o Professor X e Magneto anteriormente, eram presenças certas no filme (como ocorre com Hugh Jackman, o Wolverine). Mas a ideia foi rejeitada pelos produtores com a justificativa de que esta nova trilogia nada tem a ver com suas antecessoras e era melhor não misturar os canais. Enfim, tal como na natureza, em Hollywood nada se cria, tudo se transforma.

(X-Men: First Class - 2011)

Nasce Uma Estrela (1954)


O terceiro é o melhor (e o segundo dirigido por George Cukor) de quatro filmes sobre um casamento arruinado pela ascensão meteórica ao estrelato da esposa mais jovem e a autodestruição do ídolo decadente/mentor que ela ama. O filme de 1937, de William Wellman, com Fredric March e Janet Gaynor, ainda é um drama comovente; a versão rock de 1976, com Barbra Streisend e Kris Kristofferson, é memorável apenas por tê-la cantando. Porém o musical de Cukor, com Judy Garland (em um retorno triunfante) e James Mason em interpretações excelentes, inovou dentro do gênero musical ao impulsionar uma narrativa dramática com canções - especialmente na atormentada "The Man That Got Away" de Garland e no número arrebatador "Born in a Trunk". Insuperável, no Norman Maine de Mason está fascinante em sua aparição bêbado na cerimônia do Oscar.

Em parte uma sátira de Hollywood - divertida ao mostrar a transformação no estúdio da insossa Esther Blodgett na glamourosa Vicky Lester e ácida em sua representação da máquina publicitária que aprisiona Esther e Norman -, o filme é uma bela mistura de música, inteligência e tragédia romântica, realizado com uma convicção cativante. Em 1983, mais de 20 minutos de material anteriormente cortado foram restaurados, incluindo dois números escritos para Garland por Harold Allen e Ira Gershwin.

Nomeado aos Oscar de Melhor Ator (James Mason), Melhor Atriz (Judy Garland), Direção de Arte, Figurino, Música ("The Man that Got Away") e Trilha Sonora.

(A Star Is Born - 1954)